Surgiu hoje uma discussão algo interessante e que, infelizmente, por motivos óbvios não podia naquele contexto ser alargada. Por esse motivo atiro aqui algumas considerações que me parecem relevantes para a discussão deste tema.
Penso que a tecnologia, ao contrário do que é ideia comum, veio aproximar muito mais as pessoas. Quer queiramos quer não a realidade da natureza humana impede-nos de filtrar aquilo que parecemos ficando apenas e só com "aquilo que somos". A sociedade evoluiu negativamente no sentido individualista, mas também num sentido falsamente perfeccionista. As pessoas têm de possuir determinadas características para serem bem sucedidas. As novas tecnologias dão a cada um, na sua individualidade, a possibilidade de serem quem querem ser e não quem os outros percebem que eles são. O indivíduo existe no modo como quer existir e não apenas no modo como os outros o percebem condicionados pela informação limitada do contacto pessoal. Parece contra-senso? O contacto com as pessoas gera todo o tipo de preconceitos que não se verificam nos novos meios de contacto. Podemos procurar pessoas de acordo com os nossos interesses. Se procuramos alguém com os mesmos gostos musicais, com a mesma ideologia política ou simplesmente se queremos manter um contacto diferente com os nossos amigos e colegas transmitindo-lhes a imagem que queremos ver transmitida, certamente que o sucesso comunicacional será superior assim como a nossa percepção e satisfação com o resultado produzido. As pessoas que têm tendência a serem descriminadas encontram uma forma de se mostrar ao mundo não como eles são aos olhos de quem as vê mas como se querem mostrar. Não interessa se é verdadeiro ou falso. Se alguém considera a beleza física a coisa mais importante da vida e nasceu sem ser atingido pela sorte de a possuir poderá mostrar-se como assim o entenda e atrair para si todas as pessoas que valorizam exactamente a mesma coisa. E isso não é negativo, muito pelo contrário. O que é negativo é as pessoas valorizarem as coisas erradas. Mas essa é outra questão que o individualismo como ideologia fundamentalista propagou e demasiado complexa para analisar em tão limitado espaço.
Podemos fazer um pequeno exercício mental de nos recordarmos de como se processam as trocas de presentes na época natalícia, como se processavam as trocas de cartas, de cumprimentos, de rituais sociais decrépitos e hipócritas que podem hoje ser simplesmente eliminados das nossas vidas com um bloqueio, com um “delete” cirúrgico. Não temos que dar porque recebemos. Não temos de responder porque alguém se lembrou de reenviar uma mensagem enviada a quinhentos outros indivíduos a dizer exactamente as mesmas balelas. Temos a liberdade e o à vontade para criar o círculo de pessoas que realmente nos interessam no mundo virtual que se torna, afinal, o mundo real. E toda essa plataforma tecnológica não eliminou, antes pelo contrário, potenciou a vida social dos indivíduos. As noites continuam povoadas. Não se gerou um exército de zombies agarrados a teclados e telemóveis. Os bares e as discotecas estão cheios. Os concertos, os cinemas e os teatros continuam a somar e a facturar. A alteração comportamental está precisamente na facilidade de aplicação dos filtros sociais que nos fazem eliminar todo o lixo que nos rodeia. Mas mais importante de tudo, vem dar a muitos tipos de excluídos o potencial de integração real ou virtual. Um coxo, um zarolho, um gago, um perneta, é virtualmente quem quer ser, quem quer efectivamente mostrar e nenhuma forma de descriminação é produzida excepto quando é suposto o indivíduo querer ser descriminado.
Daí se explica o sucesso de projectos como o Second Life onde o indivíduo é aquilo que realmente quer ser e não aquilo que os condicionalismos diversos o obrigam a ser na vida real. As formas de socialização virtual (redes sociais como o Hi5) ou de complemento tecnológico comunicacional (as SMS, MMS ou instant messaging), aproximam as pessoas e criam menos hipóteses a equívocos. Claro que as mensagens podem utilizadas de forma abusiva ou então de forma indiscriminada mas elas dizem-nos muito sobre o seu autor ou a sua autora. Não é de todo verdadeiro que não existam relações de amizade criadas em ambientes virtuais e os cuidados e ter no mundo virtual são de longe menos exigentes que os cuidados a ter com as pessoas no mundo real.
Se as tecnologias trouxeram alterações de comportamentos não se pode considerar que nos tornámos melhores ou piores pessoas por sua causa directa ou indirecta. O problema é que em paralelo existiram alterações profundas nas sociedades que passaram a centrar-se no indivíduo e a negar a si mesmas o direito de intervir positivamente sobre este. Curiosamente o uso das tecnologias é frequentemente para contrariar este determinismo social. A vida mostra-nos uma realidade dura. Nascemos, vivemos e morremos sós. O nosso ponto mais importante de contacto com as pessoas, o contacto real e efectivo com o outro que nós queremos ver mostrando o “eu” que queremos ser, está precisamente nestas novas formas complementares de comunicação. O mesmo é dizer que a alteração comportamental é positiva porque nos afasta mais da máscara e nos aproxima mais da realidade da individualidade de cada um dos que escolhemos para existirem nas nossas vidas.
sábado, 30 de maio de 2009
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